Do amor que não vivi

Por Vitória Cabral

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Quantos amores gostaríamos tivéssemos tido? Quantos romances impossíveis? Feitiço de sono, passeio na praia, conversa depois do sexo – olhar que diz muito, toque que acalenta a alma? Tanto podemos fazer, tanto fazemos sem perceber, tanto somos sem saber ser; quanto a aprender? Quanto a aprender a sentir? A desejar? A deixar para trás, na história, no coração da memória, na pele que não se vê: a pele do ser, a pele do coração com alma?

Lembro perfeitamente daqueles olhos que me fitam de hoje e sempre, daqueles olhos que não me largam nem por segundo, mas me obrigam – como que num acesso de posse doce e amável, a reviver o momento em que saí de mim para o encontro do ser que me suspendeu a razão e colocou meu coração no lugar que lhe é próprio: fora do peito, à frente do corpo, exposto às alegrias e misérias da vida dos fatos. Meu coração saiu do corpo onde houvera criado raízes e sentido proteção, viu a rua, sentiu os cheiros, caiu no chão. Levantou-se e reaprendeu a bater, a andar. Teve que, aqui e alí, escolher entre ir ou ficar, apostar-se ou corroer-se por não ter ido; meu coração teve que me olhar nos olhos e se enxergar em mim, para que assim pudesse ter o direito de sentir eu te amo. Resolveu ser livre e criou asas, hoje ama a liberdade.

IMAGEM: Sara Herranz

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1 Comentario on Do amor que não vivi

  1. Taise
    janeiro 3, 2016 at 7:36 am (1 ano ago)

    Adorei o jeito como poetiza a prosa!…

    Responder

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