Arquivo de ‘Entre cônicas e Poemas’ category

Desapegue o que não for

Por Vitória Cabral

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Tem gente que chega para somar, mesmo quando quer subtrair, a partir disto escolhemos como vamos reagir. Da quebra do imaginário pode nascer em mim poesia ou sonho, pode florescer sabedoria para compartilhar, ou posso me lamentar por ser quem sou, já que me limito no erro ou na dor.

Crescer dói, mas é loucura estagnar com medo de mudar, mesmo que a gente guarde um medo ou dois. Precisamos crescer, pois o sentido da vida é para frente.

Não que ampliar meus problemas ou medos, quero aprender com eles antes que me afogue fora de quem sou e ser quem não sou. Não vale nada guardar o que já não faz bem. Depois do desencanto vem o dessabor, ou seria um desamor, que resulta da inversão do amor? Apegar além do necessário torna uma casa vazia toda entulhada do que já não tem mais uso. E entre o obsoleto e a beleza minimalista escolho o simples, mesmo que pense muito sobre isso.

Imagem por: @pizzacomsushi

 

Antes de dormir

Por Vitória Cabral

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Era o mistério que cercava, fazendo bagunça dentro e fora de si.  Vivia como que tentando entender o único coração que lhe era nesse tempo. Andava cheia de pensamentos, saltando-lhe a vista, girando a cabeça e prendendo o ar.

Sim, todos a diagnosticavam com uma síndrome de caso perdido de quem sonha de olhos aberto. Quanto mais o vento soprava mais sua cabeça girava, mais aquela música fazia fundo pros seus pensamentos, mas as ideias se distorciam deixando um buraco negro dentro do peito.

Antes de dormir sempre calhava de pensar que todo mundo tem esse buraco negro no meio do peito e que por ele ser tão forte cada um tenta sanar esse infinito com o que tiver em mãos. Mas ela, estranhamente, queria muito senti-lo, não que gostasse, mas era uma necessidade. Até entender que perder-se é o caminho em encontrar-se.

Quando o irreal é invisível aos olhos

Por Vitória Cabral

ullySegundo a ciência da vida, observada por Antoine de Saint-Exupéry  ”é apenas com o coração que se pode ver direito; o essencial é invisível aos olhos”. É preciso sentir pra viver, é preciso ver, as pessoas são assim. E por onde anda nosso olhar?

É necessário tão pouco pra se perceber dono de imensas fortunas. Mas onde está teu tesouro? Sei que é lá que guardamos nossos corações, já dizia o Mateus, discípulo do Cristo. E muitas vezes me vejo mirando o irreal. Não sei se do lado daí as coisas também são assim, mas por aqui eu vivo mirando os sonhos e devaneios, bem certa de que uma hora tudo vai acontecer. Pode ser ilusório, mas é o irreal que move meu mundo, que me tira da cama com resistência todos os dias. É pensando em uma decolagem alta, sem previsão de pouso, que  a vida me faz continuar.

Autorretrato: Ully Flôres | @Ullyflores

Pulou pro talvez

Por Vitória Cabral

Pra compor o texto que fiz hoje trouxe uma foto por  @Janribeiro

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Olhou-se no espelho e repetiu três vezes o que já sabia não ser mais verdade. Abriu a porta e, para sanar seu minuto de lucidez e apagar de si o que não queria ver, tirou o batom da boca, meio borrado, em meios às lágrimas de si, meio meia.

Corria pela meta do instante que era – mas vai passar – precisa se curar daquela lucidez, precisa esquecer-se num canto qualquer e seguir o roteiro…

Parou de frente ao destino e pulou pro talvez.

A inconstância do medo de amar

Por Vitória Cabral

dcc32e4be6b427159661ddcf5726803aQual o momento certo pra saber se é amor? Quanto tempo vale a alma disposta a encontrar o que procura?  Ao se dar em parcelas e em seguida fugir do que mais se quer, você se depara diante de tantas incertezas na vida.

Talvez seu medo morem em saber se o outro lhe é recíproco, se é verdade ou ilusão, e isso te consome. Nesse tempo não  sabe o que se sente. Calma, só com o tempo entendemos.  E então você foge e se mira em outro universo, já que essa loucura  não te deixa viver. E assim faz do vazio um espaço do abismo que recai sobre você e o outro, pois é inútil acreditar em um começo depois que se perdeu o tempo, a hora e o lugar.

É injusto não saber o que vem depois, mas é assim que seguimos viagem, ou melhor, é por isso que continuamos seguindo em frente, pra saber o que nos espera.

Eu sei, não podemos voltar, mas sou dada ao e se… e tudo mudaria?

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Transição

Por Vitória Cabral

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Se reinventar é uma tarefa diária. Mas será que existe alguém inteiramente completo? Vez por outra fico imaginando se esse alguém não poderia ser eu, se de fato este alguém é real. Mas já parou pra pensar quanta gente de papel exite por ai? Gente que a gente inventa que é feliz 24h, e bem por isso nos obrigamos, quase sempre, a estampar um belo sorriso no rosto. Gente que a gente inventa que não tem problema como eu e você e que idealizamos, de longe ou de perto, uma felicidade eterna.

Daí eu lembro do trecho daquela do Rodox – De Uma Só Vez “se escrever com giz a chuva apaga o que é definitivo como tatuagem”, quanta coisa que abandonei por anos e quando fui buscar o tempo já havia levado pra dizer que não era eterno. Quantas coisas me assombram por não serem exatamente como antes, mas quanta gente eu assusto por já não ser o que lembravam.

A vida é meio disso e daquilo, de medo e coragem, de olhar pra frente e abraçar a nostalgia. Mas daí tem um hora que a gente tem de entrar pelo nosso avesso pra entender quem nos tornamos e equilibrar o que é saudade com o que é ilusão.

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Sobre aquela canção

Por Vitória Cabral

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Precisava andar só, com os pés descalços e repensar a vida enquanto a areia passava pelos meus dedos.

Eu havia me tornado uma estranha em mim, havia perdido meu jardim secreto, meu lugar seguro. Mas como voltar dentro de si mesmo? Dizem que o que nos impede de andar pra frente é a direção que escolhemos. Eu ficava pensando e repesando sobre isso, enquanto tentava arrumar a bagunça dentro do que diziam ser minha alma. Já era um bom começo.

De passo em passo, quando percebi, eu corria por ai como uma louca, respirando fundo e com uma vontade insana de chorar. E juro, eu juro mesmo que ouvi alguém sussurrando “You were made to go out and get her”. Foi ai que fui parando. Eu não precisava fugir, só mudar a direção de tudo, só arrumar todo o caos que havia dentro do meu coração/mente.

E eu poderia nem estar perto do que mais queria conquistar, mas eu sabia que realmente era isso que ia fazer. Não era uma dor tola que ia me fazer retroceder.

Voltei pra casa olhando as coisas como elas poderiam ser, ainda tinha vontade de chorar enquanto sentia a areia passando pelos meus pés, mas era um choro de consolo próprio. Escolhi uma música triste e me senti melhor, o medo passou, o sol também.

 

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Insensatez | parte 3

Por Vitória Cabral

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Ela não aguentou, depois dele perder sua formatura, de tão bêbado, ela saiu de casa. Deixou tudo okay, até comprou o pão. Não tinha raiva. No fim, o carinho era grande, sabia que não adiantava tentar mudar o que ele era, mas já tinha mais que pago uma dívida; tinha se afastado dos amigos, que não entendiam. Sem contar com a família que tinha avisado que aquele romance não ia durar muito tempo, que depois de dois meses ela enjoava e arrumava um surfista estudante de direito, combinava mais.

Depois de tanta abnegação, esforço, renuncia deixou um bilhete perto do saco de pão; já não dá pra viver assim, na quinta nos vemos naquela sorveteria.

Ela pensou, voltou no tempo, ligou pras amigas, saiu pra se reconhecer. Chorou um pouco, ficou bêbada e falou que iria mudar e que amava as amigas. Mas ninguém costuma acreditar numa promessa de segunda ou terça.

Ficar na casa da irmã mais velha era melhor que ficar na casa dos pais, mas a irmã teve que dizer e redizer o quanto abominava aquele cara sem futuro.

Chegou a tal quinta, e realmente fez as malas de vez, mas não o deixaria tão só, já havia organizado sua vida, não ia deixar que ele continuasse uma bagunça, arrumou um emprego pra ele na agência de um amigo.

O amor não foi suficiente, e mesmo que parecesse insensatez deixar um amor, ela teve de partir. Muda-lo seria injusto, ele era o que era, essa era a maravilha dele, e ponto.

Talvez o destino desse amor fosse a saudade um do outro, cheio de lembranças de algo que ambos, claramente, jamais esqueceriam, mas era obvio que continuar com esse amor seria uma escolha infeliz. É que nem sempre amor e felicidade são sinônimos.

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Insensatez | parte 2

Por Vitória Cabral

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Corre e quando vê já está na biblioteca do clube, entre as estantes. Pega um livro do Cabral e outro do Osman. No beco perto do clube vê uns caras puxando a sua garota pelo braço, como se tivesse a força de um touro enfrenta os valentões e leva a garota pra sorveteria mais próxima. Conversaram por horas, ela conta sobre a vida e chora um pouco. Ele não acredita no presente, mas entende tudo que sai da boca dela. Ela pede pra ver os seus desenhos e seu coração gela, seu estômago ferve, ou o contrário? Consegue responder que deixou o caderno em casa já que era o fim das aulas. Ela sorri e marcam outro sorvete pra que ela possa ver os famosos desenhos. Ele fica nervoso e a acompanha calado até a porta do seu prédio. Ela vai pensando em como ele é estranho, mas como ele foi bom, do pouco que soube dele por ele mesmo acabou se encantando por aquele garoto estranho.

Ela foi pro curso de economia, ele foi fazer cinema. Ela vivia da razão exata e ele dos sonhos impossíveis. Ela pagava o aluguel, ele esquecia de comprar pão. Ela pagava o plano de saúde e ele não tinha direção. Ele andava muito bêbado, ela já não era um sonho e ele amava ilusão. Ela o amava cada vez mais e ele ficava sóbrio cada vez menos. Ele desenhava gatos vermelhos, fazia festas no apê com um bando de gente feia e fedida, fumava e bebia mais que o combinado. Ela chorava por se sentir tão só e ele achava que o que viviam era poesia. Ela se formou e ele empurrava o curso com a barriga. Ela gritava, não entendia. Ele ria, não precisava cortar o cabelo, trocar de roupa ou tirar os sapatos pra dormir no sofá.

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Insensatez | parte 1

Por Vitória Cabral

Gente, eu adoro escrever umas besteiras. E por esses dias fiz um texto que vou repartir em três partes e postarei durante a semana, espero que gostem ♥

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Se derretia em lágrimas. Faziam cinco dias que revia cada passo dado e nada o salvaria daquela noite. Nada…

Se ao menos soubesse… não sabia, não tinha nem ideia, apenas queria seu amor de volta. Mas era inútil, no lugar de um coração batia um fino metal, era isso o que diziam dela. Tão fria e tão distante. Olhava sem nos ver de verdade, embora a gentileza estivesse presente em suas palavras sabíamos que seus sentimentos não passavam da boca.

Se considerava uma mulher prática, a única insensatez era amar um bêbado viciado em cigarros baratos, cabelos muito bagunçados e que vivia de fast food. Apesar de todos os pesares tinha um coração gentil e cheirava muito bem, aquele cheiro de amoras e cigarro tinha gosto de nostalgia. Além disso ele havia salvo sua vida.

Quando adolescente ele vivia desenhando seu rosto em vários ângulos e de várias formas, uma paixão quase secreta, pois ele achava que ninguém da escola sabia. Algumas vezes ele rondava seu quarteirão para ver se ela iria passar e sorrir de volta; isso nunca aconteceu. Depois virou sócio do clube só pra ficar olhando a garota tomando sol pela janela da biblioteca. Odiava o lugar, de frente para o mar e muita gente bonita no mesmo lugar; um resumo do inferno. Mas adorava o acervo da pequena biblioteca e as janelas que de cima contemplavam toda parte da piscina,  e ela sempre estava por lá.

No último dia de aula do último ano seu coração estava aos pedaços, nunca mais veria aquela garota todos os dias pela manhã, começou a usar um shampo de amoras depois de saber que era a fruta preferida dela.

O toque final estronda seu coração, todos comemoram, mas ele fica por ali, tentando imaginar como seria se ele topasse com ela por aí, talvez ela viaje pras festas de fim de ano. Talvez ela arrume um novo namorado…

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